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ARTIGO TÉCNICO

Cenários para o agronegócio brasileiro
em 2022/2023

Carlos Cogo 
www.carloscogo.com.br

O cenário é desafiador para todos os agentes do agronegócio na temporada 2022/2023, desde produtores, cooperativas, tradings, indústrias e revendas de insumos até indústrias e dealers de equipamentos e máquinas agrícolas. O fenômeno climático La Niña, projetado desde meados do ano passado se confirmou, trazendo as estiagens em regiões do Sul do Brasil, que se estenderam para a Argentina e o Paraguai. A quebra na safra brasileira de soja 2021/2022 está estimada preliminarmente pela nossa Consultoria em 20,7 milhões de toneladas (-14,2%), para 125,0 milhões de toneladas, ante 145,7 milhões de toneladas na comparação com a projeção inicial. A atual projeção contabiliza as quebras consolidadas até 31/01/2022. A estimativa é bem inferior do que as 140,5 milhões de toneladas estimadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que indica uma safra brasileira de 139,0 milhões de toneladas, ambas divulgadas em janeiro/2022.

Essas projeções poderão sofrer novas revisões, à medida em que evolua a colheita da safra de verão 2021/2022. A quebra na 1ª safra de milho 2021/2022 no Brasil está estimada, preliminarmente, em 7,7 milhões de toneladas (-26,4%), para 21,5 milhões de toneladas, ante 29,2 milhões de toneladas na comparação com a projeção inicial. 


Para a produção total de milho nas três safras nacionais de 2021/2022, a projeção foi revisada de 120,8 milhões de toneladas em novembro/2021, para 112,2 milhões de toneladas, uma redução de 7,1%. Para tanto, estamos projetando a 1ª safra (verão) em 21,5 milhões de toneladas, a 2ª safra (inverno) em 88,7 milhões de toneladas, com 2,0 milhões de toneladas na 3ª safra. A confirmação de uma safra recorde de milho em 2021/2022 dependerá da 2ª safra.

Com as quebras preliminares na 1ª safra de milho e na safra de soja, a atual projeção para a safra brasileira de grãos 2021/2022 é de 270 milhões de toneladas, uma perda de 30 milhões de toneladas (-10%) ante a projeção inicial, de 300 milhões de toneladas. 


Por outro lado, a rentabilidade dos produtores brasileiros de grãos – exceto os que sofreram perdas das suas colheitas - deverá ser recorde neste ano. Com custos refletindo as condições ainda de 2021 e preços da safra atual em patamares mais elevados, os produtores de grãos devem obter margens recordes. Com insumos adquiridos ainda no 1º semestre de 2021, os produtores vêm se beneficiando desse quadro de preços sustentados no mercado internacional. 


Até o início da colheita da segunda safra de milho (entre maio e junho), que pode se refletir na estimativa total da safra de grãos brasileira, o monitoramento do clima seguirá determinante não apenas para o volume da safra, mas também para a formação de preços.

Esse monitoramento também importa para o desenvolvimento da safra do Hemisfério Norte, que se encaminha para números também positivos, mas que naturalmente também estão sujeitos às questões climáticas. Contudo, uma produção mundial possivelmente maior pode ser compensada pelo balanço apertado entre oferta e demanda, com queda na relação entre estoques e consumo. Nesse quadro de estoques de passagem apertados, os preços se tornam ainda mais sensíveis aos desenvolvimentos climáticos e aos custos de produção, a segunda variável chave para as perspectivas de grãos em 2022/2023. Os problemas de logística estão longe de serem superados, afetando a oferta de navios e contêineres, devendo manter os custos de transportes em patamares elevados.

A volatilidade do câmbio no Brasil deverá persistir ao longo de 2022, diante da fraqueza da economia, com possível retração do Produto Interno Bruto (PIB), inflação ainda elevada, incertezas provocadas pelas eleições, o processo de alta de juros nos Estados Unidos e os rumos ainda desconhecidos da pandemia de Covid-19. Em meio a isso, a projeção para a faixa de oscilação do câmbio é ampla. As preocupações com suprimentos e elevados preços de insumos, como fertilizantes e defensivos, permanecem, gerando incertezas para fornecedores e agricultores. Em relação aos custos de produção, os preços dos fertilizantes, por exemplo, subiram, em média, 180% desde o início de 2021, refletindo restrição na oferta e questões geopolíticas do setor.

A alta de preços de insumos agrícolas se encaixa em um debate global de um choque de inflação mais duradouro do que se imaginava há alguns meses. Por outro lado, a safra de grãos deste ano não reflete a alta total dos custos neste período, já que foram adquiridos principalmente no início de 2021. Em contrapartida, para 2023, as condições para margens recordes e elevadas podem não se repetir. Os produtores vão se deparar com custos de produção elevados em 2022/2023, o que poderá levar à redução das margens de rentabilidade, alteração de planos de expansão de áreas, afetando a capacidade de captura de novos investimentos. O Plano Safra 2022/2023 será lançado em um cenário de juros altos e escassez de recursos públicos. A taxa Selic tende a ficar em patamares elevados, na tentativa de combater o processo inflacionário, o que pode resultar em insucesso, se não vier combinada a uma política firme de ajuste fiscal. Tudo isso levará à necessidade de cautela, planejamento acurado e gestão estratégica dos fatores de produção.