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ARTIGO TÉCNICO

CENÁRIO É POSITIVO PARA O AGRONEGÓCIO BRASILEIRO EM 2021/2022

Carlos Cogo

SÓCIO-DIRETOR DE CONSULTORIA

SAFRA DE GRÃOS DEVERÁ ATINGIR NOVO RECORDE EM 2021/2022

A projeção da nossa consultoria para a safra brasileira de grãos 2020/2021 aponta uma produção recorde de 275,7 milhões de toneladas, 7,3% acima do ciclo anterior, com aumento de 4,2% na área plantada. A safra recorde em 2020/2021 é puxada pelos fortes incrementos esperados para as colheitas de soja e de milho, com ênfase para as expansões de 4,2% na área cultivada com a oleaginosa e de 6,9% na superfície semeada na 2ª safra de milho. Entretanto, os atrasos no plantio e colheita da soja levaram a uma semeadura de parcela expressiva da segunda safra de milho fora da “janela” considerada ideal, o que elevará os riscos de perdas. Portanto, a confirmação da colheita recorde ainda dependerá dos resultados das colheitas de milho 2ª safra e de trigo.

A projeção da nossa Consultoria para a próxima safra brasileira de grãos 2021/2022 aponta para um novo recorde de 294,6 milhões de toneladas, 7% acima da atual (275,7 milhões de toneladas). O recorde previsto para 2021/2022 será puxado pelo incremento estimada para as áreas de soja (+3,9%), milho 2ª safra (+5,1%) e algodão (+18,6%) e da previsão de incremento de 3,4% na produtividade média dos grãos, para 4.165 quilos/hectare, ante 4.027 quilos/hectare na atual safra. A área total de grãos prevista para a próxima temporada 2021/2022 é de um recorde de 70,7 milhões de hectares, 3,3% acima dos 68,5 milhões de hectares cultivados na safra 2020/2021.

FATURAMENTO DA AGROPECUÁRIA DEVERÁ SER RECORDE EM 2021

O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) deverá ser recorde em 2021, ultrapassando pela primeira vez a casa de R$ 1 trilhão, com base em valores deflacionados pelo IGP-DI. Conforme o levantamento da Coordenação-Geral de Avaliação de Política e Informação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o VBP de 2021 está estimado em R$ 1,058 trilhão, 12,4% acima de 2020 (R$ 941 bilhões). O VBP projetado para 2021 é o maior já obtido na série histórica, iniciada em 1989.

A agricultura deverá ter faturamento bruto de R$ 727,7 bilhões e pecuária, de R$ 330,1 bilhões. O crescimento real deve chegar a 16,1% nas lavouras e 5,1% na pecuária. Nos últimos três anos, soja e milho têm apresentado recordes sucessivos de faturamento. A soma dessas duas atividades resultou num valor 65,4% do VBP das lavouras. Em valores absolutos, a soja apresenta uma estimativa de R$ 345,9 bilhões e o milho, R$ 129,9 bilhões. Na pecuária, o bom desempenho é dos setores de bovino, frango e leite, que correspondem a 86,2% do valor gerado. A carne bovina representa 45,0% do valor da pecuária, acompanhada por frango e leite. Outro grupo de produtos com estimativas de crescimento do VBP é o formado pelo algodão, arroz, laranja, trigo e uva.

PIB DO AGRONEGÓCIO REGISTRA ALTA RECORDE

Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio registrou crescimento recorde de 24,31% em 2020 em comparação com 2019. Especificamente no mês de dezembro, o indicador subiu 2,06%. Com o resultado, setor amplia de 20,5% para 26,6% sua participação na economia brasileira. No segmento primário, dentro da porteira, o avanço anual foi de 56,59%, seguido pelo setor de serviços (20,93%), agroindústria (8,72% e insumos (6,72%).

 

O PIB agrícola subiu 24,2% no período, já o da pecuária, 24,56%, ambos puxados pelos preços maiores das commodities agropecuárias, além de maior produção. Apesar dos resultados positivos, com todos os segmentos da cadeia produtiva do agronegócio tendo registrado crescimento no PIB, o setor agrícola ainda está se recuperando do cenário desfavorável dos últimos anos. No setor primário (atividade dentro da porteira), por exemplo, a renda real recuou 20% de 2017 a 2019, apesar do crescimento de 20% da produção no mesmo período diante do momento desfavorável de preços.

 

Além disso, a valorização dos grãos ao longo de 2020 não foi aproveitada por todos os produtores, por causa da elevação dos custos de produção e do forte movimento de venda antecipada. Na ponta da pecuária, o forte aumento nos custos de produção também limitou os ganhos, afetando negativamente as margens dentro da porteira e na agroindústria. Além dos insumos de alimentação, que estiveram expressivamente encarecidos já que os grãos operaram em patamares recordes, no caso da pecuária de corte, deve-se destacar também as fortes elevações do bezerro e do boi magro.

TENDÊNCIA DE ALTA DOS PREÇOS AGRÍCOLAS GLOBAIS

O índice de preços dos alimentos da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) atingiu o maior nível desde meados de 2014, em termos reais. O resultado está sendo impulsionado pelo forte salto nos preços dos óleos vegetais, cereais, carnes e lácteos. O grupo de oleaginosas (soja, girassol, palma) acumula uma alta real de 72% entre 2015 e 2021, enquanto o grupo de cereais (milho, trigo e arroz) avançou 25% no mesmo intervalo, também em termos reais. Os produtos feitos à base de palma, soja, canola e girassol estão em alta com as preocupações com os baixos estoques, principalmente em relação ao óleo de palma. Preocupações persistentes sobre os níveis restritos de estoques nos principais países exportadores coincidiram com uma recuperação gradual na demanda de importação global.

 

Apesar de a Covid-19 estar ainda muito longe de ser debelada no mundo, as economias dos países, em geral, vêm se recuperando de forma razoavelmente rápida da forte queda provocada pela pandemia. A China é o maior exemplo disso. Um dos principais efeitos desse cenário é o aumento da demanda e, consequentemente, dos preços, das matérias-primas. De abril do ano passado até abril de 2021, as cotações em dólar das 19 principais commodities agrícolas, metálicas e de energia subiram, em média, 40%, de acordo com o índice Commodity Research Bureau (CRB), indicador que é referência no comportamento das matérias-primas. É um avanço que interessa diretamente ao Brasil, um dos maiores fornecedores mundiais de produtos importantes, como soja, milho e carnes. Ainda não se pode afirmar que o mundo caminha para um novo “superciclo” das commodities, nos moldes daquele que se iniciou na primeira década dos anos 2000.

A forte escalada nos últimos meses dos preços das matérias-primas (como soja, milho, trigo e açúcar) levantou a discussão de que um novo ciclo de alta de cotações das commodities pode estar a caminho. Mas não há consenso sobre um novo “boom”. Há uma grande chance de que esteja acontecendo um novo super ciclo de commodities. Desde a recuperação da crise de 2008, esse movimento tem se mantido. As altas do petróleo dão sinais disso. De forma mais cautelosa, estamos tratando esse momento como “um miniciclo positivo de commodities”, com uma conjuntura de alta de preços e uma recuperação do tombo sofrido em 2020. Apesar das diferentes avaliações sobre a duração da alta, isto é, se, de fato, trata-se de um novo ciclo ou não, há razões objetivas que impulsionam para cima os preços das commodities.